Mais uma sobre o passado...
Algo que eu tenho pensado frequentemente, nesses últimos tempos, é sobre o passado. Sobre a minha infância e adolescência. Principalmente agora, com tantas novidades na família. Irmão tendo filho, Primo tendo filho. Pra mim, eles ainda são crianças. Eu não consigo enxergar eles como pais. E acho que por isso que eu tenho relembrado tanto do passado.
Minha infância não foi ruim. Não foi mesmo. Eu gostava (e ainda gosto) de ter poucos amigos, e ficar mais na minha. Mas eu sempre tive a opção de fazer qualquer coisa que eu quisesse fazer. Futebol, Judô, Ballet, Coral, Música, Tênis. E eu sei que tudo isso, eu só consegui, porque o meu pai trabalhava muito para conseguir ter dinheiro pra proporcionar pra gente uma boa educação e uma vida decente. Eu sempre estudei em escola particular, sempre pude fazer aulas de inglês, ou atividades extra-curriculares. E por mais que na época eu não tivesse percebido o quanto isso foi importante e que não deve ter sido fácil para o meu pai, agora eu percebo. E isso faz com que o meu orgulho de ter ele de pai, seja amplificado ainda mais.
Mas voltando para as muitas atividades que eu pude fazer, eu nunca consegui chegar a gostar de algo, porque tudo o que eu fazia (menos Ballet), meu irmão fazia também, e ele sempre foi melhor do que eu em qualquer coisa. E ele nunca parecia se esforçar para ser melhor, ele simplesmente era. E foi um pouco por causa disso que eu nunca consegui encontrar o que eu realmente gostava, porque eu estava muito preocupada tentando ser tão boa quanto ele. Na minha cabeça de criança, não fazia sentido a gente ter os mesmos pais, a mesma casa, a mesma escola, e ele ser bom e eu ser ruim. E na minha cabeça isso significava que eu era inferior a ele. Acho que foi aí que começou tudo.
Já na minha adolescência, eu já tinha essas coisas na cabeça, e somado com isso, eu era muito tímida para fazer amigos, mas eu não sabia que eu não tinha amigos por ser tímida, eu achava que eu não tinha amigos porque eu não era boa o suficiente para ser amiga das pessoas. E talvez ele nem saiba, mas o meu irmão reafirmava o que eu já achava, sempre que ele podia, falando coisas ruins de mim, e me fazendo acreditar que eu não era, e nunca seria boa o suficiente.
Até que chegou um momento que eu achei que não tinha mais como aguentar. Eu não era boa o suficiente para estar viva. Eu estava ocupando espaço no mundo. Um espaço que poderia ser ocupado por alguém útil, alguém que melhorasse o mundo de alguma forma. Alguém que ajudasse os outros. Alguém que eu nunca poderia ser. Foi a época que eu considero como época depressiva da minha vida. Eu sentia como se a minha vida não valesse a pena. Demorou um pouquinho para eu começar a entender e perceber que tudo aquilo que eu sempre acreditei que era, era uma projeção que o meu irmão tinha feito de mim. Ele falou tantas e tantas vezes, que eu acreditei, e de certa forma, me tornei aquilo.
Eu acho que só depois da terapia que eu comecei a melhorar de verdade. E perceber que tudo aquilo do passado me afetou. Porque é uma coisa que a gente não percebe, as vezes. Você acha que "esqueceu" e que "perdoou" mas a verdade é que ainda tá. Aquilo que você passou, fez você fazer as escolhas que fez, fez seguir o caminho que seguiu. E tudo está interligado. Talvez, se ele não tivesse me feito acreditar que eu nunca seria boa o bastante, eu não tivesse ficado com "medo" de cursar medicina (afinal eu não era inteligente o bastante pra passar em medicina). E talvez, se eu tivesse feito medicina, eu nunca iria encontrar o Paulinho, por exemplo. Mas tudo aquilo fez com que eu trilhasse o caminho que eu trilhei. E hoje, finalmente, eu posso afirmar com toda certeza, que eu estou feliz de ter trilhado esse caminho. Eu estou satisfeita com quem eu sou, com as minhas ações e até com os meus pensamentos.
Concluindo, eu passei por momentos difíceis? Passei. Mas a culpa não é de ninguém, a não ser minha. E eu não vejo mais esses momentos difíceis como coisas ruins, mas sim como obstáculos que me levaram a chegar onde eu estou hoje. E se hoje eu estou bem, é porque eu mereci aprendi com os meus erros. E afinal, o que é crescer, se não aprender com os erros do passado e melhorar para o futuro, não é?
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