Olhares
Ele sabia que tinha algo errado. Conhecia a garota a no mínimo 15 anos. Depois de algum tempo de convivência, você simplesmente sabe quando está tudo bem, ou quando tem algo incomodando o outro. E esse era o caso. Tinha algo a incomodando.
- O que você tem? - Perguntou o garoto, passando a mão pelos cabelos da melhor amiga, que estava com a cabeça em seu colo.
- Nada... - Respondeu a garota, desviando o olhar dos tão conhecidos olhos verdes.
Ele suspirou e girou os olhos, mesmo sabendo que a outra não veria, por estar agora com os olhos fechados. Voltou o olhar para o rosto da amiga. Nunca tinha observado tão de perto seu rosto. Era tudo tão perfeito e combinava com sua personalidade. Sua boca era bem vermelha e pequena. Seu nariz era pequeno também e um tanto arrebitado. Seus olhos estavam fechados, mas sabia que por baixo das pálpebras, existia um lindo azul, que as vezes, de tão claro, parecia cinza. Ah! Como já tivera inveja daqueles olhos azuis("Inveja dos meus?! Imagina! Os seus olhos são lindos! São tão... verdes. Eu é que tenho inveja"). E os cabelos macios entre seus dedos. Loiros não tão claros que poderiam ser confundidos com castanhos. Mas sabia que era só por causa da tintura que ela insistia em passar. Sua cor verdadeira era um loiro claro, que quando estava no sol, chegava a refletir a luz. Mas nada nela era mais extraordinário do que os olhos.
- Você sabe que não consegue esconder coisas de mim, não sabe?!
Ela abriu os olhos, e olhou para ele. O garoto sabia ler cada expressão apenas olhando nos olhos dela. Coisas que se aprendem com o tempo. E dessa vez, ela estava nervosa. Não era uma coisa comum nela. Ela era sempre tão confiante...
- É disso que eu tenho medo.
- Você... não quer que eu saiba o que é?
A garota suspirou e escondeu o rosto com as mãos. Sinal óbvio de que ela estava nervosa. E a única coisa que se passava na cabeça dele é: 'O que é tão importante assim para abalar tanto uma garota tão confiante como ela?'
- Não é isso. Eu quero! Mas ao mesmo tempo eu não quero... Eu quero que você saiba. Mas... eu não quero ter que falar em voz alta. - Disse a garota, finalmente tirando as mãos do rosto e olhando para o amigo. Então abaixou a voz e disse - Eu vou parecer idiota.
- Hey... Olha pra mim. - Disse ele, tirando a cabeça dela de seu colo e deitando ao seu lado, deixando seus rostos num mesmo nível. - Você não precisa falar se não quiser. Mas saiba que não existe como você parecer idiota.
Ela sorriu, deixando a mostra seus dentes brancos e levemente tortos. Sabia que a amiga evitava sorrir, pois tinha vergonha dos dentes. Mas simplesmente não entendia porque privar todos de um sorriso tão bonito.
Ela olhou fundo nos olhos do melhor amigo, e levou sua mão aos cabelos negros dele, que fechou os olhos imediatamente. Em voz muito baixa, como se não quisesse estragar o silêncio confortável, ela falou:
- Eu acho que eu 'to apaixonada.
O estômago do menino deu cambalhotas. Sabia que essa hora iria chegar algum dia. Afinal, alguém tinha que despertar o interesse da garota, que a tanto tempo nunca gostou de ninguém.
Mesmo assim, no fundo sempre teve uma pequena esperança de conseguir se declarar antes de que esse dia chegasse. Aparentemente falhou nisso.
- Que bom. Quem é o cara?
Ele abriu os olhos, e deu de cara com a íris azul o encarando. Seus olhos gritavam: 'VOCÊ!'
Ele a olhou, como se quisesse uma certeza, e então percebeu a confiança voltar a garota. Ela fechou a pouca distância que havia entre eles, e encontrou seus lábios com os dele, num rápido selinho.
'Eu sempre te amei!' Era o que o garoto queria ter falado. Mas eles não precisavam daquilo. Palavras são triviais e facilmente esquecidas. E ele não queria que aquilo fosse esquecido.
Ele sorriu, e ela sabia o que aquele sorriso significava: "Finalmente!" Eles se conheciam bem demais para precisarem de palavras. Palavras são triviais e facilmente esquecidas. Olhares eram profundos e seriam lembrados para sempre. Pelo menos entre os dois.
Comentários
Eudes Jr. Stockler - Blog