Hoje seria diferente. Como último trabalho do ano, ela não ia ficar se enrolando e ia fazer o que tinha que ser feito, e ia terminar antes das dez da noite.
Oh, ledo engano.
Ela ia dividir as tarefas, e assim, certamente o trabalho ficaria pronto mais rápido. Mas o que fazer quando isso só atrapalha mais, pois além de você fazer o seu, tem que corrigir o que a colega fez.
Ela ia ter uma noite de sono tranqüila, sabendo que era a ultima fez que ela acordava cedo esse ano. O que aconteceu com telefone? Porque não para de tocar? Três horas de sono, acordando de meia em meia hora não é uma noite de sono tranqüila.
Deitou a cabeça no travesseiro, já passava da meia-noite. E assim que fechou os olhos viu imagens passando rápidas por seus olhos. Imagens pretas e vermelhas. E o telefone toca, o que seria a primeira vez na noite conturbada. Com um pulo, levantou da cama, apenas olhando fixamente para o telefone, com receio de atender. No fundo, já sabia qual seria a notícia, já havia chorado muito no dia anterior, por saber que fim teria aquela história.
Quando o irmão desceu as escadas correndo, de madrugada, e pelo pouco que dava para ver (por culpa da luz da lua), branco como papel, ela já sabia do que se tratava. Tentou segurar as lágrimas, mas sentia seus olhos arderem, e sabia que deveriam estar vermelhos, já. Nunca fora boa em segurar o choro, ainda que evitasse chorar em frente as outras pessoas. O telefone foi passado para a mãe, que apreensiva ouvia a voz do outro lado da linha. Assim que desligou, sentia as lágrimas correrem soltas pelo rosto.
- Ele morreu.
Dói saber que você não vai estar aqui. Dói saber que agora, tudo o que eu tenho de você são memórias, que com certeza irão se apagando com o tempo, até restar uma vaga lembrança. Dói saber que você suportou até aqui, apenas para tentar ver a vida daqueles que você amava ser encaminhada. Dói saber que você se foi apenas uma semana e meia antes de sua neta mais velha chegar aos 18 anos. Dói também olhar nos olhos de todos ao meu redor, e ver que não sou só eu que me sinto assim.
Sua casa nunca mais será a mesma sem você, sem seus chocolates e frutas em cima da mesa de cabeceira, sem suas roupas jogadas por cima da cadeira que ficava no canto do quarto, sem seu celular tocando estridente e longamente, até você achar seus óculos, os colocar, e ver no visor quem estava ligando.
Sim, você fará muita falta na vida de todos que um dia conviveram com você. Nós sentiremos falta daquela pessoa carismática, animada, e sempre brincalhão.
O que me consola é que eu sei que agora estará num lugar melhor, longe das dores e do sofrimento que vinha passando nos últimos meses.
Sentiremos sua falta, Vovô...
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